quarta-feira, dezembro 13, 2006

VIVA "SEU LUIZ"!

O mês de dezembro é, mesmo, o grande privilegiado dentre os meses do ano. Até parece que o Todo Poderoso achou por bem dividí-lo com alguns escolhidos Seus, quer no nascimento, quer na morte, como que para perpetuar a sua importância. Neste mês lembramos várias personalidades que se tornaram imortais, marcando a história com seus feitos extraordinários: Tom Jobim, John Lennon, Clarice Lispector, Florbela Espanca, Noel Rosa, Cassia Eller ... Enfim, são muitos os seres iluminados que o Senhor escolheu para seus parceiros neste mês, mas dentre eles tem um que me toca mais intimamente e que jamais poderia deixar de citar, como conterrânea, forrozeira militante, nascida e criada em Caruaru - a Capital do Forró: LUIZ GONZAGA, O REI DO BAIÃO, O PERNAMBUCANO DO SÉCULO, O GONZAGÃO, FÍ DO VÉI JANUÁRIO, "SEU LUA", "SEU LULA" OU, SIMPLESMENTE, "SEU LUÍ".

LUIZ GONZAGA DO NASCIMENTO nasceu numa fazenda de Exu/PE, no dia 13 de dezembro de 1912. Aprendeu sua arte vendo o pai, o sanfoneiro Januário, animar bailes nos sábados da cidade e consertar foles, harmônicas, pés-de-bode, ou de que outra forma se chamava lá o acordeom.
Emigrou de lá fugido, depois de uma baita surra que levou da sua mãe, Dona Santana. Tinha, então, dezoito anos e se apaixonara por Nazarena, moça rica, cujo pai espalhara pelos quatro cantos que não ia querer sua filha de namoro com aquele "neguinho sem futuro". Ao saber disso, sentindo-se injuriado e pra mostrar que era "cabra macho", foi tirar satisfações com o pai da moça, na feira, num domingo, bem acintosamente, pra todo mundo ver. O homem ficou uma fera e queixou-se a Dona Santana: "Outro desrespeito desse, minha senhora, pode acabar em sangue". A mãe, então, mais temerosa que zangada, nem respeitou os dezoito anos do filho: Deu-lhe uma surra daquelas! Humilhado e ofendido, o rapazinho arrumou as trouxas e partiu.

Depois de servir ao exército em Fortaleza viajou pra São Paulo, onde comprou uma sanfona nova, fazendo biscates, até que desembarcou no Rio de Janeiro. Alí, arranjou um emprego no Mangue, zona do baixo meretrício de então, em cujas noites tocava nos bares de quinta categoria. Numa dessas noites um estudante pernambucano, de passagem, ao ouví-lo tocar valsas, tangos, fox-trotes e boleros, sugeriu que ele tocasse alguma coisa da nossa terra, pra matar saudade, caso contrário não teria dinheiro no pires, utensílio usado pra amealhar moedinhas dos notívagos. Tava dada a "deixa". Pensando naquelas palavras, Gonzaga compôs dois chamegos: "Pé de Serra" e "Vira e Mexe", este último lhe deu o primeiro prêmio no programa de calouros de Ary Barroso e foi o primeiro passo para a sua contratação pela Rádio Nacional. A glória e o sucesso foram as consequências naturais dessa sua saga. Em 1950 o baião já era tão tocado nas rádios quanto o samba, o bolero e outros ritmos estrangeiros da moda.
"Quando cheguei na cidade, menino, já tinha um nome que era "baião", porém agora ficou tão granfino e nem liga pro Sertão" - censurava a si próprio, por se metropolitanizar, ou regozijava-se do sucesso da sua música, no auge da fama:

"No Rio tá tudo mudado
Nas noites de São João
Em vez de polca e rancheira
O povo só pede, só dança o baião
Ai, ai, baião - Você cresceu!
Mas no Sertão ninguém lhe esqueceu
Ai, ai, baião - Segue o teu destino.
Você já cresceu, já nos esqueceu,
Ficou tão granfino".

Junto com Humberto Teixeira, Zé Dantas e tantos outros compositores de primeira linha, Luiz Gonzaga cantou e contou as verdades, as dores e a sensibilidade do povo nordestino com um lirismo incomum, fazendo a tragédia da sua região de origem atingir a expressão musical.

Durante os seus 50 anos de chão, Luiz Gonzaga viu a sua música saindo (era dos "cabeludos", do Rock and Roll, do Yê, Yê, Yê) e voltando (época da tropicália, Caetano, Gil, Alceu Valença, Fagner), ciclicamente, à moda. Gonzaguinha, seu único filho, meio que abandonado na infância, somente aos 16 anos encontrou-se com o pai famoso, depois de ter sido criado por amigos da sua mãe no Morro de São Carlos, onde nasceu.

Sanfona e voz calaram para sempre em 02 de agosto de 1989, em Recife, onde o coração do velho cantador, minado por seis meses de doença (a uma osteoporose seguiram-se vários tipos de infecção e uma pneumonia fatal), parou por volta das cinco e meia da manhã. Seu corpo, embalsamado, foi velado na capital, em Juazeiro do Norte e na Exu natal, onde foi sepultado no fim da tarde, deixando órfãos todos os seus milhares de seguidores, contemporâneos ou jovens, que hoje velam por sua memória reverentemente, entoando as canções que popularizaram o Nordeste nos quatro cantos do mundo, como: Asa Branca, Baião, Paraíba, O Xote das Meninas, Estrada de Canindé, Que nem Jiló, Juazeiro, ABC do Sertão, São João na Roça, Noites Brasileiras, A Volta da Asa Branca, Vozes da Seca, etc...

Gonzaga morreu quatro anos depois de cantar em Paris e dois anos depois de ganhar o Prêmio Shell de Música Popular. Seis anos antes, havia namorado a idéia de se candidatar "Serei um deputado feliz - dizia, à época - Se ajudar o Brasil a ter consciência do seu sertão". Como se sua música já não o tivesse feito e tão bem.

Cantou assim a desolação de quem sofre de paixão:
" Quando perco a esperança
Parece uma tentação ...
Me sento lá no terreiro,
Escoro o rosto com a mão
-Sem sono, pobre coitado,
Fazendo risco no chão"

E assim, as agruras de um coração saudoso e inseguro:
"Juazeiro, seje franco: Ela tem um novo amor?
Se não tem, por que tu choras, solidário à minha dor?
Ai, Juazeiro! Eu num guento mais roer!
Ai, Juazeiro! Eu prefiro, inté, morrer!"